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Conversa com Fernando Pessoa

Revista Arte + Cultura | 03 Mar 2016

E “COMPANHEIROS DE ESPÍRITO”

 

Uma figura esguia surge na entrada. “Alguém vai entrar pela porta… Sente-se o ar sorrir…” mas, afinal, quem sorri sou eu, porque reconheço nesse perfil arqueado, nesses tons escuros das vestes, na cabeça coberta com um chapéu amolgado, Fernando Pessoa ele próprio. E sorrio porque não foi fácil conseguir esta conversa com o Autor – tímido e reservado, Fernando Pessoa tinha poucos amigos e raramente falava com estranhos. Talvez me considere como uma conhecida, dado que folheei tantas vezes os seus livros, partilhei horas absurdas, paisagens invertidas, sonhos sem limite, impossíveis.

 

Talvez, agora que está morto, tenha percorrido completamente o caminho alquímico e tenha confirmado que “Não há morte”. Não sei, o certo é estarmos agora frente a frente, no seu último quarto, ele pousado no parapeito de uma janela de onde avista o mundo, eu na beira da cama, à espera que se troquem palavras, se intersectem ou interpretem silêncios.
Num impulso, ele diz-me: – E se eu pedisse: “Não digas nada!/Não, nem a verdade!/Há tanta suavidade/Em nada se dizer”?
Encarei os olhos míopes, embaciados pelo vidro das lunetas redondas. Devolveram-me o olhar, perscrutando a minha reação. Consegui balbuciar:
– Se me dissesse esses versos eu perceberia que está a citar um poema seu…
Os lábios finos esboçaram um sorriso, semiocultado pelo bigodinho à americana. Resolvi aproveitar o momento de sintonia e interroguei:
– Gostaria de lhe perguntar, já que esta conversa vai ser publicada no primeiro número da ROOF Magazine, cuja temática é O Admirável Mundo Português, o que é que considera ser português?
Pigarreou um pouco e, gesticulando, afirmou:
– “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. […] É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis”. – E fica a observar-me, à espera da minha resposta.
Antes de eu poder retorquir, surge uma ovelha, tresmalhada de certeza, porque este quarto citadino não é o lugar para apascentar o gado. Uma voz faz-se ouvir, retumbante:
– “Eu nunca guardei rebanhos”. Porque é que colocaram a ovelha como deixa para a minha entrada?
Mirámo-lo, espantados com a sua presença. Pessoa-ele-mesmo pergunta:
– Porque vieste até aqui, Mestre?
Alberto Caeiro responde:
– Vim apenas esclarecer que “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/Não há nada mais simples/Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte./Entre uma e outra todos os dias são meus”.
Consegui articular, ousadamente:
– Olá Mestre. Parece que vai ter de acrescentar mais uma data à sua biografia – esta, da nossa conversa.
Caeiro vira-se para mim, os olhos azuis, grandes de tanto ver, a fitarem-me, e retorque: – Mas os dias continuam a ser meus, e o tempo é este instante em que te falo, mas não quero pensar, “pensar é não compreender, é estar doente dos olhos”.
(…)

Publicado na ROOF 1

Agradecimentos à Casa Fernando Pessoa

Texto: Paula Monteiro
Fotos: Miguel Costa

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